21.10.24

A Licantropia na Psiquê Humana



A licantropia, na visão da psicologia profunda e da psicanálise, é um fenômeno que vai além da mera transformação física. Ela simboliza o mergulho do ser humano em seus instintos mais primitivos e reprimidos, revelando a batalha interior entre a racionalidade e a selvageria. Carl Jung, com seu conceito de "sombra", oferece uma chave para entender a essência da licantropia: todos nós carregamos dentro de nós aspectos ocultos e rejeitados, partes de nossa psique que não desejamos reconhecer como nossas. A transformação em lobisomem é, portanto, um poderoso arquétipo da projeção da sombra – o monstro dentro de nós que toma forma e ganha vida quando reprimido por tempo demais.

Freud, com sua teoria dos impulsos, já argumentava que o ser humano é, em sua essência, moldado por forças inconscientes e primitivas, especialmente os impulsos sexuais e agressivos (o id). A licantropia, nesse sentido, seria uma metáfora dessas forças instintivas que rompem as barreiras do ego e do superego, revelando a verdade crua de nossa natureza animal. É um rompimento com a civilização, onde o homem, incapaz de suportar as repressões culturais e morais, devolve-se ao estado selvagem, tal como o mito do lobisomem.

O simbolismo da lua, tanto na psicologia quanto na ciência, carrega significados profundos e atemporais. Cientificamente, a lua controla as marés e tem uma relação direta com os ciclos da natureza, principalmente as águas – o elemento líquido que, na astrologia, está associado às emoções, ao inconsciente e ao feminino. Jung também via a lua como um símbolo arquetípico do inconsciente, daquilo que não pode ser visto diretamente, mas que, como a lua, influencia os movimentos internos da psique humana. Ela está associada aos ritmos cíclicos e às mudanças emocionais, em especial às marés emocionais dentro de nós.

Na psicanálise, a lua representa o feminino misterioso e o aspecto sombrio da mente. Ela é a face oculta da psique, onde os desejos reprimidos e as forças inconscientes agem. Sob sua influência, os homens – representados pelo lobisomem – se transformam, perdendo sua racionalidade e retornando ao seu estado mais instintivo. Assim como o ciclo lunar, as emoções humanas oscilam, e a lua cheia, frequentemente associada ao auge da licantropia, pode simbolizar o momento de maior expressão do inconsciente reprimido, quando o controle consciente é rompido.

A astrologia, que associa a lua ao elemento água, sugere que a influência lunar não é apenas física, mas também emocional e espiritual. O elemento água, representando as emoções profundas e os segredos ocultos do inconsciente, é afetado pelas fases lunares, refletindo como os seres humanos, em especial seus sentimentos mais profundos, são influenciados pelas marés internas. A água é flexível, mas também pode ser destrutiva, assim como as emoções e os instintos reprimidos.

Essa relação entre a lua, a água e as emoções humanas revela algo crucial: nossa incapacidade de escapar de nossos impulsos primordiais. Os instintos animais – que a licantropia simboliza tão bem – são parte indissociável da psique humana. Tentar eliminá-los é como tentar bloquear o fluxo natural das marés; podemos construir barreiras, mas eventualmente elas rompem, muitas vezes com força devastadora. Isso levanta a questão fundamental: pode a humanidade evoluir eliminando seus instintos primitivos?

A resposta, segundo Jung e outros pensadores profundos, é que a evolução não está na repressão dos instintos, mas na sua integração. O ser humano não pode transcender seu estado atual tentando sufocar o animal dentro de si; em vez disso, deve encontrar uma forma de harmonizar suas partes racionais e instintivas. O processo de individuação descrito por Jung é a chave para essa evolução: é necessário confrontar a sombra, reconhecer os impulsos primitivos, e integrá-los de forma consciente e saudável à psique. A licantropia, nesse sentido, é o fracasso dessa integração – o homem que se torna lobo é o homem que perdeu o controle sobre sua própria sombra.

Grandes literaturas, como *O Médico e o Monstro* de Robert Louis Stevenson, exemplificam esse dilema humano. A dualidade do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde é um reflexo da mesma luta: o desejo de ser um "homem civilizado" versus a incontrolável atração pelos instintos reprimidos. A única maneira de avançar é encarar esses impulsos de frente, tal como o herói enfrenta o monstro nas lendas antigas, não para destruí-lo, mas para domá-lo e torná-lo um aliado.

A lua, em seu simbolismo astrológico e psicológico, reflete essa necessidade de equilíbrio. Ela não é apenas uma força de caos ou transformação descontrolada, mas também uma guia para a renovação cíclica, para a aceitação dos altos e baixos emocionais e instintivos. Assim como a lua sempre retorna à sua fase nova, o ser humano pode sempre se renovar ao permitir que suas emoções fluam e seus instintos se manifestem de maneira equilibrada.

A evolução da humanidade, então, não está em eliminar seus instintos primitivos, mas em aprender a expressá-los de maneira consciente. A licantropia – o mito do homem que se transforma em lobo – pode ser lida como um aviso: aqueles que não reconhecem seus instintos, aqueles que reprimem seu lado animal, acabam por ser dominados por ele. Por outro lado, a verdadeira evolução humana virá quando pudermos caminhar sob a luz da lua, com plena consciência de nossa dualidade, sem medo do lobo interior.

A chave para essa evolução reside na aceitação e no equilíbrio. Precisamos, como Jung sugeria, abraçar a totalidade de nosso ser, unindo a luz da razão com a escuridão dos instintos. Só então poderemos nos libertar dos ciclos de repressão e explosão, vivendo como seres completos, em harmonia com nossos próprios ritmos internos e com as marés do mundo ao nosso redor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Bem vindo/a
Fique a VONTADE para INTERAGIR!